Nem sorte, nem Acaso

Tudo começou quando na quinta-feira ( 17/05), tive uma prova oral na faculdade. O texto escolhido por mim foi Epistemologias do Sul. Um dos trechos do mesmo falava sobre algumas consequências do Capitalismo, entre elas como pequenas elites locais que beneficiaram da dominação capitalista, mesmo após a independência, continuaram a exercer poder sobre as classes sociais subordinadas.
Remeti tudo isto à minha infância. Lembro da cidade de onde vim, as famílias eram conhecidas por sobrenomes ( apelidos em Portugal). Cada família tinha uma atividade como fonte de rendimento. Fabricas de cerâmica, e Batedeira ( lugar designado ao tratamento do Sisal. O Sisal é uma planta originária do Mexico utilizada para a fabricação de cordas, tapetes...) Eram as maiores fábricas que haviam. A minha familia era os trabalhadores.
Escusado é citar que as condições laborais daquela época eram precárias. Ou as pessoas colocavam a sua propria saúde em risco por necessitar do dinheiro, ou os empregadores pensavam que quando estes mesmos trabalhadores estivessem inaptos para o serviço, os filhos dos empregados que estavam a crescer, o substituiriam. Só para se ter uma ideia, as fibras do sisal podem ser utilizadas na industria automobilística, substituindo a fibra de vidro.
Mainha trabalhava na batedeira. Sei de outras mulheres que podiam ficar em casa a preparar o almoço para o marido e os filhos, mas o que esperar de uma mulher que não teve a sorte de ter um companheiro e lhe restar duas crianças para criar? Minha mãe é sagrada!
Aqui entra a parte interessante. O filho do dono da fabrica tinha a certeza que que aquilo tudo ficaria para ele, que ele seria o proximo dono, bem como provavelmente os filhos do operários, sabiam que substituiriam o trabalho dos pais.
Eu já fui várias vezes na Batedeira com mainha e traquina como era, lembro dos gritos dela para que eu me afastasse, um dos perigos era alguma faísca cair em meu olho. Ao mesmo tempo me questiono hoje qual era o desejo dela de definitivamente me ver longe daquele trabalho...
Um desvio social ( baseando-se no conceito de Max Weber, em como o indivíduo é um mero repetidor das práticas sociais no âmbito de sua colocação) era impensável.
As únicas armas para se lutar contra isso era a educação.
Minha mãe conta um episódio que eu por volta dos 4 anos voltava da escola com um grupo de outras crianças e uma vizinha ouviu eu a falar alto :"eu hoje ensinei tudo a Natalino na escola"...
Uma das brincadeiras frequentes que eu tinha, era junto com outras meninas, arrumar uma trouxa de roupa e ir para a rua pedir carona ( boleia) aos carros que passavam, a gente brincava que íamos viajar, naquela epóca meus queridos, pasmem!!! Mas não haviam boatos de violência, nem de roubo de crianças. Os adultos passavam nos carros e riam da gente, ainda contavam às nossas mães....
Só queria dizer que hoje estar numa Universidade na Europa não é mera sorte.

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